
Desde muito cedo sempre me interessei por literatura brasileira. Mais precisamente pela fase regionalista, que vigorou no Brasil com o amadurecimento do Modernismo (depois da famosa Semana de 1922) e atingiu o seu ápice a partir de 1945, tendo à frente nomes de peso, como Erico Veríssimo, Rachel de Queirós, Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, entre tantos outros gênios da palavra.
Esses autores modificaram minha vida, meus gostos, minha maneira de pensar e ler o mundo, de me relacionar com as pessoas. A partir de cada um deles, conheci um pedaço da minha cultura, da minha identidade e, sobretudo, meu fascínio pela literatura, emaranhados na complexidade dos personagens de ficção: suas intrigas, amores, modos de vida, nuances no falar, peculiaridades no agir. Tudo isso impulsionou o meu espírito a quem chamo hoje de Caio. Por isso alimento, por esses mestres, um ufanismo mal-disfarçado, um interesse descomedido, uma obsessão saudável, incontrolável.
Mas, como se sabe, nem tudo são flores nos jardins da hipocrisia. É uma pena que as academias de literatura, que deveriam representar com louvor esses monstros sagrados, atribuindo-lhes imortalidade e oferecendo-lhes homenagens periódicas, saraus literários e menções honrosas, se prestem ao ridículo papel de valorizar aqueles que quase nada ou nada contribuíram para o amadurecimento da Literatura Brasileira.
Para se ter uma ideia, o senador Fernando Collor de Mello acaba de ser nomeado membro da Academia Alagoana de Letras pela inédita votação de 22 votos a favor, 08 brancos e nenhum contra ou nulo. O atual presidente da AAL, Bispo D. Fernando Lório, deslumbrado, afirmou que nunca havia presenciado uma votação tão expressiva em outros tempos. Mas o problema, amigo leitor, é que Collor, em toda a sua vida política, jamais publicou um livro, um conto, um romance. Sua nomeação se baseou em artigos escritos na imprensa local (da qual o seu jornal impresso, a Gazeta de Alagoas, é o maior representante).
Trocando em miúdos, a importância que Collor conferiu à literatura brasileira é a mesma importância que o Sarney dá para a opinião pública ou para a ilegalidade de nomear parentes para o Congresso: nenhuma. Aliás, o próprio Sarney, bem como Roberto Marinho e Paulo Coelho (para ficar apenas em alguns absurdos) já foram eleitos “imortais” da Academia Brasileira de Letras. É mole ou quer mais?!
Pode parecer exagero o que vou dizer, mas colocar o nome de Fernando Collor, no mesmo contexto e em pé de igualdade com Graciliano, Lêdo Ivo, Jorge de Lima e tantos outros - que levaram a literatura alagoana às principais rodas literárias do mundo -, é quase uma profanação, um tapa na cara do apreciador da boa palavra, uma afronta ao mínimo senso de estética e crítica literárias.
As academias de literatura desse país há muito tempo perderam o seu valor. Posicionam-se contra qualquer forma de modernização do idioma e mantêm um conservadorismo obsoleto e voluntário. Se elas insistem em não respeitar a nossa inteligência, o desprezo é a melhor moeda de troca que temos a oferecer. Certo estava Monteiro Lobato, que se recusou a fazer parte desse conclave de esnobes e oportunistas, que são a ABL e suas filiais.
Por isso, amigos, pelo fim da hipocrisia na literatura, votemos em Lobato para presidente. Emília vice!